quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Emiliano Perneta


EMILIANO PERNETA, POETA ANSIOSO PELA REVELAÇÃO DO MISTÉRIO


Neste artigo tentarei indicar o que me parece ser o caráter essencial da obra poética madura de Emiliano Perneta (1866-1921), obra essa representada pelo livro “Ilusão”, publicado em 1911, pelo poema dramático “Pena de Talião” (1914) e pela coletânea póstuma “Setembro” (1934).

EP é o poeta da ilusão. Para ele, nosso mundo é de aparências, está envolto pelo “véu de Maia”, conforme a concepção hinduísta, cuja presença é mais evidente em seu livro de estréia—“Músicas” (1888). Por traz do mundo ilusório, existe um outro mundo, que ele não sabe precisar como é, mas ao qual sente pertencer (“Vozes”). O outro mundo, que também contém elementos da tradição judaico-cristã (o pai de EP era cristão-novo), é o mundo do espírito, promessa de felicidade e alegria, já presentes na beleza que todo artista busca e quase nunca alcança. EP pensa como Stendhal que “La beauté est une promesse de bonheur” e como John Keats, para quem “A beleza é uma alegria eterna”, epígrafes que escolheu para dois de seus poemas. Esse outro mundo é o da plenitude da beleza, o da realização do artista, o da glória, que o artista tanto almeja.

Mas EP é também o poeta da natureza, das “florestas de símbolos” (cf. o soneto “Correspondances”, de Baudelaire) que permitem entrever uma outra dimensão da realidade, pois o mundo material corresponde ao mundo espiritual. O poeta procura apreender os sentidos que a natureza apresenta, e não o conseguindo – dadas as limitações de sua contingência -- atribui a ela os que decorrem de seus próprios “estados d’alma”. O poeta se sente unido à natureza, ela é o seu verdadeiro lar na Terra e lhe fornece uma referência estética permanente.

Nas poucas referências explícitas à paisagem local, EP refere-se ao pinheiro “como uma taça erguida para a luz” (“Iguaçu”), associando-o à elevação do espírito. E no final do poema “Sol”, outra bela amostra de como lida com os elementos da natureza, expressa-se deste modo: “—Ah! Que sombria dor e que profunda mágoa/ De não poder ser eu aquela gota d’água,/ Que depois de fulgir, assim como uma estrela,/ Derrete-se na luz, funde-se dentro dela!”. “Fulgir como uma estrela” bem expressa o seu ideal de vida superior, antes da inevitável extinção, quando se integrará fisicamente na natureza... “Setembro”, cujos dísticos fazem o elogio da vida no campo, é outro poema que pode ser aqui destacado, embora composto em tom diverso, com versos mais espontâneos e diretos (“Vestido de aldeão, com o meu chapéu de palha,/ Eu vi quanto era bom um homem que trabalha.”) .

EP é o poeta voltado para a própria condição do artista neste mundo, que
é dominado pelos bárbaros, inimigos do bem e do belo (os bárbaros não se identificam com nenhuma classe social em especial na sociedade burguesa em que vivemos, eles estão presentes em todas elas). O poeta para EP é o cavaleiro andante de outrora empenhado no bom combate, em luta pelas nobres causas estéticas e éticas, que acabam se fundindo numa só causa. Ele sabe que está previamente condenado neste mundo. Não obstante, prossegue em sua luta (“Dama”). Para não conviver com os bárbaros, faz o elogio da solidão. É, por isso, poeta-torre-de-marfim, sim (“Solidão V”), mas também o do elogio da vida simples, de aldeia, da gente humilde sem preocupações estéticas ou metafísicas, que tanto o inquietam e fazem dos artistas seres infelizes (“Solidão I a IV”).

O poeta, além de cavaleiro andante, assume as personae de rei (cf. “Salomão”, soneto bem concebido, em que a imagem final sintetiza todas as suas aspirações inalcançáveis), de D.Juan (cf. a série de oito sonetos sobre ele), de Erisicton, o personagem mitológico cuja fome era tão insaciável que passou até a devorar a si mesmo (“A fome de Erisicton”) e de eremita, intrigado com a solução do Mistério (“O enigma”).

EP é o poeta do tédio imotivado, do “spleen” baudelaireano, da inquietação existencial (“Amor cinzento”), cujo motivo reside, em última instância, na aspiração pelo “outro mundo” -- pátria do seu espírito -- e no seu desajustamento a este, em que vive, que lhe é hostil. O seu próprio fim não o atemoriza, pelo contrário o atrai (“Corre mais que uma vela...”), porque é um pré-requisito para conhecer (ou não) a revelação do grande mistério da condição humana, e do mundo. Muitos poemas de EP buscam meios de evasão para tal estado psicológico. Isso levou Tasso da Silveira a chamá-lo “poeta de evasão”. Assim, ele é também poeta do amor sensual, pois busca alívio para o tédio nos braços da mulher, é poeta da ânsia de viajar, “seja para onde for” (“Versos para embarcar”), é ainda poeta do elogio à embriaguez, seja pelo vinho ou pela arte, saídas para tal condição deplorável (quanto à salvação pela arte, EP poderia dizer, como Flaubert, que “A vida é tão horrível que só se pode suportar, evitando-a, o que se consegue vivendo no mundo da arte.”)

J.G.Merquior afirmou: “Perneta é antes de tudo um bom lírico-erótico”. De fato, muitos versos (como aquele “Tarde de olhos azuis e de seios morenos” de “Baucis e Filemon”, repleto de cativantes sinestesias) e alguns de seus melhores poemas (como “Versículos de Sulamita”, “Adultério de Juno” e “Esse perfume”) têm realmente esse caráter (a simples menção do título desses poemas já mostra a importância em EP da mitologia bíblica e greco-latina, que ele soube explorar habilmente). Esse lado lírico-erótico de EP, contudo, é bastante paradoxal, considerando-se que ele supervaloriza o espírito e menospreza a matéria. Porém o ecletismo é uma característica marcante do poeta paranaense, tanto em termos filosóficos quanto estéticos ou religiosos. Assim, ele não é só poeta simbolista, mas também romântico e parnasiano. É ateu em seu primeiro livro, hinduísta (donde decorre a concepção de que tudo é “maia”, ilusão, em sânscrito), panteísta e posteriormente cristão assumido (mas não católico, ou vinculado a qualquer outra religião organizada). Seus melhores poemas religiosos são os dois dedicados à Virgem Maria (“Em seu louvor” e “Graças te rendo...”) e “Oração da noite”, que Brasílio Itiberê II musicou.

EP é poeta que evolui para uma concepção mais elevada do amor – a do amor ao próximo (“Para que todos que eu amo sejam felizes”), resultante de sua opção humanista, que se acentua no final da vida, quando se revela então dotado das virtudes cristãs da fé e da esperança diante da precária (e misteriosa) condição humana, objeto principal de sua expressão poética.

Fonte;
http://dvetextos.blogspot.com/2009/01/emiliano-perneta-poeta-ansioso-pela.html