sábado, 21 de março de 2009

A VIRTUDE DO SILÊNCIO



O ambiente, secreto de que se envolve a
Maçonaria, constitui sem dúvida para os não Maçons, a
cacterística mais notável da Ordem; Esta impressão vem
corroborar e fortalecer-se na Iniciação e nos graus
seguintes de maneira suficientemente concludente para
que, quem passou por todas essas cerimônias, não perca
jamais de vista seu dever de silêncio maçônico.
Podem existir alguns Maçons que, a princípio, e
mesmo durante muito tempo, sintam a necessidade de
semelhante segredo. Até os mais pensadores se
desconcertam quando tentam determinar qual o valor
prático do silêncio que prometeram guardar; pois quando
dão voltas às suas cabeças a natureza “dos segredos”,
tão zelosamente guardados, é difícil que possam evitar
um sorriso incrédulo, ante a ideia de dar grande importância
a uns tantos instrumentos e palavras secretas,
cuja divulgação pela imprensa não poderia ocasionar
grandes transtornos, ao que parece. Claro é, a conveniência
de que exista um sinal secreto para que os
Franco-Maçons possam reconhecer-se entre si; porém,
não justifica ao que parece, as extraordinárias precauções
que tomam os membros da Ordem Maçônica, para
conservar os seus sinais secretos e suas palavras de
passe.
Este tema se presta a profundas reflexões; para
isso dividiremos nosso estudo em dois aspectos, isto é, o
do Segredo e o do Silêncio. O primeiro é o aspecto
externo e exotérico e o último é o interno ou esotérico. O
segredo ou reserva é um recurso mundano de defesa,
relativamente fácil. Ao contrário, o silêncio é essencial
mente espiritual e não tem nada a ver com as conveniências
mundanas.
Existem muitas razões símples e óbvias para que
a Franco-Maçonaria guarde o segredo externo, pois,
embora hoje em dia, não sejam perseguidos por idéias
religiosas nem por opiniões filosóficas, conservamos, no
entanto, a tradição de épocas antiquíssimas em que, os
que sustentavam opiniões ou praticavam ritos que não
eram ortodoxos, deviam guardar o mais severo segredo
e a mais estrita reserva, se não quisessem por suas
vidas em perigo.
Na realidade, o pensamento original, as investigações
científicas, a cultura e principalmente, as investigações
religiosas, foram até uma época relativamente recente,
ocupações que entranhava grandes perigos, se
não realizadas a portas fechadas. A reserva ou segredo
eram também muito convenientes em muitos ofícios e
transações comerciais, com o objetivo de conservar as
receitas e fórmulas e proteger os interesses dos verdadeiros
artesãos.
À parte destas considerações puramente práticas,
não cabe dúvida de que, os atos de natureza ritualística
hão de proteger-se contra o menosprezo e as burlas dos
profanos, a fim de que, coisas preciosas e sagradas não
sejam execradas pelos que são demasiado ignorantes
para compreender sua natureza interna e sua significação
espiritual. Se não fosse tomada a medida de guardar
as coisas em segredo, é provável que os irmãos mais
débeis seriam incapazes, de suportar o esforço e sucumbiriam
ao ridículo; e, ante qualquer evento, far-se-ia um
desperdício desnecessário, de energia para desviar os
gracejos dos ignorantes, ou as malevolências dirigidas
contra a Ordem e seus, procedimentos.
Existem outras razões poderosas para que se
guarde o segredo maçônico entre os quais se destaoa a
de criar deliberadamente, uma atmosfera de mistério,
pois, se bem que essa atmosfera atraia curiosos e os
alente a se aprofundar nos Mistérios secretos da
Natureza, também tende a ativar o sentimento religioso
dos homens, procurando ainda aumentar a reverência
que se deve ter pelo Ritual maçônico. O amor misterioso
é saudável e benéfico, se dirigido prudentemente, pois,
não existe alguém, por cínico que seja, que não abrigue
uma secreta atração pelo mistério. Porque, quem não
anseia, por mais cético que seja, conhecer e compreender
o significado da Natureza com todas as maravilhas
da vida e da morte; da consciência, da origem e destino
das miríades de vidas de que está cheio o universo; e do
que existe nas estrelas, assim como sua duração? Não
existe reverência tão verdadeira como a do homem de
ciência que estuda os milagres da Natureza, para
arrancar diminutos fragmentos dos seus tesouros.
Além disso, o mero fato de participar de segredos
na conversação com outros, estabelece um sutil laço de
simpatia que ajuda a fortalecer a cadeia fraternal. Poucos
homens passam da idade espiritual em que experimenta
essa satisfação de possuir segredos, que é uma das
cadacterísticas mais destacadas das crianças. Excepto
os que carecem de imaginação, todos encontram certo
encanto em participar com outros, na possessão de
segredos, o que ocorre até no caso em que estes não
tenham valor algum, nem sejam interessantes. O mero
fato de que os franco-maçons sejam capazes de reconhecer
aos membros de sua fraternidade, em qualquer
lugar da Terra e, distinguí-los de todos os demais homens,
é um atrativo que tem algo de sonho e romance.
Uma lição valiosíssima que se deduz da prática do
segredo e da reserva, é a do caminho da língua. Diz-se
que a língua é o membro mais rebelde do corpo e o mais
difícil de se dirigir; em verdade, poucos são os homens
capazes de conservar um segredo, seja este grande ou
pequeno. Quase todos tem propensão às debilidades da
curiosidade, com cujo defeito vai unido intimanente; o
desejo de saciar a curiosidade alheia, comunicando ao
próximo o que seria conveniente guardar em segredo. De
modo que a franco-maçonaria proporciona uma excelente
disciplina, talvez algo elementar, para ter quieta a
lingua e dá uma educação que nos pode ser útil muitas
vezes. Na frase jocosa de Mark Twain de que “a verdade
é nosso tesouro mais apreciado e, portanto, devemos
ecomonizá-la...”, se encontra uma grande verdade.
Se os Franco-Maçons não adquirissem na Ordem
outra coisa mais que a capacidade de não dizer coisas
desnecessárias e de conservar o donínio da lingua, não
haveria gasto o tempo em vão. O fato de que não
encontre uma razão poderosa que justifique a estrita
conservação dos segredos franco-maçônicos, serve para
que seu treinamento seja mais efetivo. Não se deve
confiar os grandes Mistérios a quem não seja capaz de
guardar segredos sem importância.
No entanto, andaríamos equivocados se acreditássemos
que a Franco-maçonaria não tem segredo algum
que deve ser ocultado, a todo o custo, aos profanos, pelo
temor de que resulte um prejuízo real? O mundo ocidental
vai se compenetrar do de que a Franco-maçonaria
tem íntima relação com os verdadeiros Mistérios, e que
são comunicados aos Iniciados os segredos reais. Foram
estas coisas relegadas ao esquecimento durante muitos
séculos, porém, está muito longe o dia em que se restabeleçam,
e em que se confiram genuínos segredos de
terrível e extremado poder aos homens dígnos e puros;
porque, a Franco-maçonaria é magia - na verdadeira
acepção desta mal definida palavra - e magia de ordem
elevada, apesar de que, atualmente, se perdeu quase
completamente a arte. Quando chegar o momento de
sua restauração, serão essenciais a reserva e o segredo
absolutos e, então, a educação que agora recebemos
com o objetivo de que guardemos nossos segredos, aparentemente
inofensivos, nos manterá naqueles dias em
boas condições e fará com que sejamos dígnos de que
nos confiem o farol do verdadeiro conhecimento, donde
procede o poder da “magia” espiritual para ilumi-nação
dos homems e serviço do mundo.
Dirijamos agora nossa atenção ao aspecto interno
da conservação do segredo e do verdadeiro significado
do “silêncio maçónico”.
Múltiplas e valiosíssimas são as lições do silêncio,
assim como de sua beleza e mistério. Do silêncio saímos
e a ele devemos retornar, quando chegue a hora. Quando
estamos em silêncio, podemos nos aprofundar na
significação dos mistérios da Vida. No silêncio solitário de
nossos corações, é onde descobrimos as grandes experiências
da Vida e do Amor.
É preciso acalmar a natureza inferior para poder
ver a verdade ou encarar a vida com toda a equidade e
firmeza. Só quando se silencia e aquieta o tumulto das
paixões egoístas; dos veementes desejos; do ódio destruidor
ou da malevolência, é quando se pode deixar
ouvir a voz do Guia Interior - que é o “Homem Verdadeiro”
– e quando o V\M\pode dirigir a Loja. As mensagens
e ordens do M\, do Ego sábio, não podem ser
transmitidas a elemontos de natureza inferior, nem podem
ser obedecidas com toda exatidão, caso não haja
silêncio na Loja, quando cessar a altercação das lutas
emocionais e mentais, e quando todas as partes do organismo
se subordinem à direçâo silenciosa do Dono da
Consciência, ou seja, do Ego.
Quando o coração está em silêncio, a inspiração
aparece e a visão se aclara. No desvelo silencioso da
noite, na calma do deserto, no cume solitário das montanhas,
no sossego dos bosques e sob o prateado docel
das estrelas, as paixões se debilitam, a iluminação emana
da mente, o coração se inflama e o espírito adquire
asas para remontar-se ao céu.
Nos escassos momentos do silêncio, em que se
acalma o estrépito das buliçosas atividades do homem e
de suas inquietas civilizações, e quando podemos encontrar
a paz e sentir a beatitude de uma clara visão. O
silêncio é sempre mais eloqüente que a linguagem;
quando tratamos de expressar a verdadeira simpatia, a
compreensão mais profunda, o maior dos amores, o mais
genuíno dos afetos e a mais nobre das camaradagens,
não encontramos mais que palavras imperfeitas e inadequadas
porém, estes sentimientos se conunicam livre e
facilmente, se permanecermos em silêncio. Emerson estava
certo quando disse que o volume de um discurso se
pode medir peIa distância que separa o orador do
ouvinte. Entre os amigos existe “uma compreensão, uma
inteligência calada; não existe simpatia mais real ante a
dor que a silenciosa. No olhar dos cães e dos cavalos se
descobrem mudas compreensões que, às vezes, nos
parecen mais verdadeiras e consoladoras que as mais
eloqüentes palavras dos homems.
Às emoções mais sublimes sobrepujam a capacidade
do discurso e alcançar o seu pináculo supremo no
êxtase e no silêncio. As grandes estratégias não podem
ser expressadas com palavras e até os mais agudos gracejos
fazem com que se calem os risos para provocar um
silencioso regozijo interior. Os grandes fenômenos da
Natureza, o esplendor da alvorada e do ocaso, a imponente
grandeza dos cumes, na força das cataratas, a
pureza deslunbradora dos campos nevados, o monstruoso
poder dos glaciais e das avalanches, a delicada
fragância das flores, o grato aroma que se desprende da
terra sedenta, quando passado o vento tropical, no
sossego dos mares gelados, no furor da tempestade, nas
heróicas façanhas, a vida de devoção e sacrifício, a
amargura da tristeza, o triunfo dos êxitos, a presença da
morte e nascinento de uma nova vida, nos transportara a
uma região em que as palavras orais não são necessárias
nem possíveis, e nos internam num mundo, onde o
silêncio reina supremo e todos os demais meios de expressão
são fúteis e mesquinhos.
Não há nada que seja tão vívido, tão infinitamente
flexível, do que o silêncio. Longe dele ser uma mera negação
de som, é capaz de expressar a mais extrema
diversidade de pensamentos e emoções. Recordem-se
do silêncio do ódio implacável e do amor fiel; o silêncio
do desprezo ou da veneração; o do consentimento e o da
reprovação; o da covardia ou do valor; da tristeza ou do
regozijo ou da desesperação; o do êxito e do prazer.
É uma coisa comum, conhecida por todo o
observador da natureza humana, que os silêncios dos
homens, com frequência, expressam muito mais que as
palavras. As coisas que eles não sabem como bem expressar,
são como véus que cobrem outras mais profundas
que não sabem ou não se atrevem a manifestar por
meio da linguagem. Nos momentos de silêncio, aparece
na superfície a verdadera natureza do homem e este se
dá conta de uma alma mais íntima. Os homens débeis e
impuros, sentem isto, instintivamente, por isso, temem a
solidão e, têm medo de ficar a sós consigo mesmos, pois
são incapazes de dominar sua natureza ruim. E, ao
contrário, os fortes, os puros não temem o silêncio, mas
o buscam, porque sabem que na solidão, podem aproximar-
se de seu Deus mais íntimo. Talvez não exista
uma prova tão certa da grandeza e força interior, como a
da capacidade de experimentar os longos períodos de
silêncio e deles tirar proveito, sejam buscados deliberadamente
ou que, tenham sido provocados pela deserção
de um amigo ou de um amante, porque, quando isto
ocorre, as vontades débeis e ruins se desesperam e voltam
ao vício, enquanto que as poderosas e puras aumentam
sua moderada fortaleza, assim como a doçura de
seu carater.
O mesmo acontece com a amizade, quando chegam
os momentos de separação ou de sombra. Se o afeto
é fraco, acabará por desaparecer como coisa murcha,
porém, se é forte, sua fortaleza e sua resistência aumentarão.
A Franco-Maçonaria nos conduz desde os mundos
do estrépito e da luta ao do silêncio, no qual ficam encobertos
os segredos do coração. Todo o maçom descerá,
no curso de sua carreira, ao silêncio da tumba, e desta,
terá de passar pelo portal da morte, para entrar em uma
vida mais nobre, na qual possa encontrar os verdadeiros
segredos de M\Maçom. Se conseguir triunfar em sua
busca, encontrar-se-á no mundo dos místicos e videntes,
em que os laços de amor e de amizade se unem no
Com\, a todas as unidades separadas e onde alcançará
uma consciência superior à do cérebro e entrará em uma
região em que aparecem as diferenças e se apagam ate
os “pares de opostos”, transformando-se em uma unidade
superior.
Portanto, a Franco-Maçonaria volta a proclamar a
sua peculiar maneira simbólica e dramática, a antiquís105
sima lição de que o Reino dos Céus há de encontrar-se
dentro. A paz se consegue no centro, no silêncio. Ainda
que o Maçom saia do Or\e se encaminhe para o Oc\,
não poderá encontrar os verdadeiros segredos do
M\M\, até que retome ao C\e olhe dentro de seu
próprio coração.
Ensina-se ao M\Maçom que o construtor do Templo
Superior, ou seja, a Mente criadora e plasmadora das
formas belas, tem sido vilmente a\ por alguns IIr\de
categoria inferior à sua e que , portanto, não pode ele
comunicar-lhe o v\s\. Não obstante, o M\M\recebe
certos segredos que substituem ao outro, até que, tanto o
tempo como as circunstâncias, revelem o verdadeiro. Isto
significa que, devido à rebeldia e ao míope egoísmo dos
elementos inferiores do homem, perdeu-se a possibiidade
de obter os verdadeiros segredos por meio da
mente. Porém, se esta é acalmada e se elevar a consiência
a um nível superior, sobre os cinco pontos de
perfeição, isto é, por meio do amor, o Maçon que chegou
ao C\poderá abrigar a esperança de encontrar o perdido.
De modo que, o maçom pode chegar à sua meta e
encontrar os ss\do silêncio do c\, silenciando a mente;
porém, deve encontrá-lo por si mesmo, pois até os mesmos
segredos substitutivos se comunicam em um sussuro;
os verdadeiros não podem se promunciar em voz alta
nem em voz baixa, porque devem ser achados a sós, no
silêncio do Eu íntino.
A própria Natureza é grande mestra do silêncio,
pois realiza suas mais fornosas obras de artífice, sem
emitir sons. Os cataclismas e as destruições são acompanhadas
de estrépitos, porém, não há ouvido que possa
perceber seu trabalho construtivo. Os processos de assimilação,
de recuperação e de crescimento, a florescência
e a fertilização; as forças de expansão e de contraçao da
eletricidade, magnetismo e gravitação; a oscilação de luz
e calor, assim como de muitas outras que constroem o
mundo da vida e nutrem e sustentam, e lhes dão calor e
luz, cor e beleza, têm lugar no silêncio.
Os homens não fazem mais que imitar a Natureza
tanto quanto, constroem maquinárias, como quando fundam
organismos. A prova da eficácia destes últimos
consiste na suavidade e quietude de suas atuações,
posto que o ruído e o rangido são indícios de defeituosos
ajustes, fricção e perda de energia.
Esta mesma lei é aplicável também ao caráter do
indivíduo. Os que trabalham com menos ruído costumam
ser os mais destros, os mais ágeis. Os homens verdadeiramente
fortes, geralmente, os mais silenciosos, assim
como os mais gentis.
Os que mais falam são os que menos fazem. O
silêncio interno, indicador do domínio completo e consciente
sobre todo o organismo, é essencial para esta
obra, constante e conscienciosa que conduz às grandes
realizações e façanhas. Os feitos mais bravos são os que
se fazem e vivem no silêncio. A incalculável força de
vontade humana - cujo valor, apenas o mundo moderno
reconhece - opera em silêncio. Saber é bom; usar é
melhor; porém ser silencioso é o melhor de tudo. O discurso
corresponde aos homens, a música aos anjos e o
silêncio aos deuses. Os sons têm princípio e fim e são
temporais; o silêncio nunca cessa, é eterno. Às vozes
dos sábios e dos mais compassivos não são ouvidas
mais do que por aqueles que sabem abstrair-se do
tumulto das palavras e das querelas humanas, para
colocar-se no C\, esperar que soe a música do silêncio
e aprender a sabedoria, a força e a beleza que fluem
desse Centro para os que podem aliar-se a essas secre107
tas forças benéficas, donde vira a salvação dos bons e a
saúde do mundo.
Segundo uma lei oculta, a charla desnecessária e
excessiva representa um grande desperdício de energia.
Quando Jesus curou o homem enfemo, lhe recomendou
que seguisse o seu caninho e não contasse a ninguém o
que havia ocorrido. Quando é preciso falar, é preferível
fazê-lo depois de haver estudado o fato de que se trata
na conversação. Malgasta-se mais energia na conversação
supérflua e nécia que em nenhuma outra coisa. Os
irreflexivos prestam pouca atenção ao prudente conselho
de que devem escutar mais do que falar. Poucos são os
grandes ouvintes, porém, o mundo está cheio de grandes
faladores. Quem queira aprender para chegar a sábio,
deve antes de tudo, adquirir a arte de permanecer
silencioso enquanto observa, ouve e pensa continuamente.
O primeiro passo que se deve dar no caminho da
sabedoria é o de permanecer em silêncio; no entanto,
que esteja atento e ativo e não puramente passivo. Este
princípio regia as escolas pitagóricas, onde os discípulos
conhecidos pelo nome de ouvintes, passavam por um
período probatório de absoluto silêncio, durante o qual
não se consentia que falassem. Como poderia um mestre
ensinar aos que não sabiam estar em silêncio? Os homens
se lamentam da falta de cultura; costuman, porém,
serem os culpados, porque não deixaram nenhum resquício
em suas mentes, para que penetren nelas novas
idéias, já que seus princípios pensantes, como os chama
Patanjali, se encontram em estado de modificação ou
“agitação” turbulenta, de modo que novos ensinamentos
rebatem na mente como objetos que se lançam contra a
periferia de uma roda que gira com grande rapidez.
Na ciência física, abundam as analogias e exemplos
da lei do silêncio. A luz só é visível quando dá em
um objeto escuro; se não houvesse nada que recebesse
a luz, tudo permaneceria em trevas. O som divide a continuidade
do silêncio em fragmentos e secções e, deste
modo, o faz perceptível a nosso sentido. A música é
composta de silêncio, do mesmo modo que uma estátua
de Phidias é esculpida em um márnore informe, ou como
os esplendores do por do sol se refletem na pura e
invisível luz branca.
Toda a composição musical se conpõe de numerosas
porções de silêncio separadas entre si como as
divisões de uma régua que marcam a distância no
espaço incomensurável. O ritmo, a melodia e a harmonia
nada mais são do que métodos de espaçar e de padronizar
os fragmentos do silêncio. Assim como todas as cores
existem na luz branca, assim também, todos os sons
estão latentes no silêncio. Assim como a luz de um M\
Maçom não é outra coisa que trevas tornadas visíveis,
assim também, o som ou a música é silêncio tornado
visível.
Assim sendo, a Franco-Maçonaria é, em realidade,
um drama de silêncio, uma sinfonia à base do
tema do silêncio. Ela chama o homem para que abandone
o tumulto e a barafunda dos negócios mundanos e
se retirem a esse centro silencioso, onde não podem
entrar os sons e onde tudo é paz. O primeiro e constante
dever de todo o Franco-Maçom se baseia em sonservar
fechada a L\, em guardar silêncio e abrigar-se nela. O
Cand\à maçonaria que vai em busca da verdade, entra
na L\em silêncio e trevas e é conduzido desde os
tumultuosos sons do exterior até o mundo interno, no
qual cessam todos os ruídos e onde reinam a paz e o
silêncio sereno. Em todas as etapas de seu progresso, é
posto à prova do silêncio e jura pemanecer calado, até
que por fim, sofre a última pena antes que ser infiel ao
silêncio. Depois, desce a calma final; é exaltado a uma
vida mais plena e ouve que lho dizen que busque, no
sossego de seu coração, os verdadeiros segredos que se
perderam, quando o M\H\A\os levou consigo ao
silêncio.
Cada vez que se abre uma L\(escocesa) se
recorda ao iniciado que, no princípio era o Verbo; e o
que existiu antes do Verbo? O silêncio. Quando se
encerra a L\, o Verbo Divino retorna ao lugar de sua
procedência, fecha-se o L\C\S\, voltam as trevas e o
“Silêncio recupera o seu reino”; desta forma, se
encaminha o Iniciado ao mundo para começar seu
trabalho, levando em seu coração o único inefável
silêncio, no qual todas as fantasmagorias da vida não
são mais do que fugazes intermedios (meios), pois,
quando tudo isto terninar, quando cessarem os trabalhos
nas pedreiras e quando estiver construído o T\, tudo
passará ao eterno silêncio.
A entrada na Franco-Maçonaria significa a
Iniciação no conhecimento do silêncio; de modo que, à
medida que o Maçom prossegue em sua ciência,
aprenderá a amar o silêncio, a morar nele constantemente,
a penetrar cada vez mais em suas profundezas e
maravilhas. Os homens que vivem no tumulto do mundo
são muito propensos a esquecer a existência do silêncio
e dos mistérios que este guarda. O ruído é vida para eles
e, quanto mais estrepitoso é o som, mais abundante é a
vida. Crêem eles que a ausência de som é uma carência
de vida. Porém, gradualmente a fé em tudo quanto não
pode ser tocado e visto e, não só se converteu em meros
agnósticos como além disso, chegam a ser francamente
materialistas. Quando a morte tudo calar, nada esperam,

porque creem que os mistérios da vida e da morte, e até
o amor, deixem de ter alguma significação. A Franco-
Maçonaria retroage os homens a esses mistérios que
não podem ser resolvidos com negação; ela não sustenta
que pode desvendar os mistérios, porém, pelo menos,
volta a proclamar novamente que eles existem e manda
os homens em busca do perdido.
A Franco-Maçonaria aproveita todas as oportunidades
que se lhe oferecem para inculcar a existência de
inefáveis mistérios por detrás de toda a vida e de toda a
natureza, para o que se vale dos sacrifícios do Ritual e
da Cerimônia. Mostra-nos, símbolo por símbolo, ordenando-
nos que contemplemos os eternos princípios que
estes representam e dos quais são mudos testemunhos,
pois os planos do Divino Arquiteto se desenvolvem
lentamente por estes princípios, trabalhando em silêncio
para ordenar todas as coisas, conforme a Beleza, a
Força e a Sabedoria.
Assim, que a insistência da Franco-Maçonaria
pela necessidade do silêncio e do segredo, está verdadeiramente
justificada.
A imutável tradição da Franco-Maçonaria ordena,
sabiamente, que todo o Ir\deveria comprometer-se a
selar os lábios como prova de sua lealdade ao silêncio.
Em cada novo Grau, o Franco-Maçom submerge cada
vez mais profundamente no coração do silêncio, até que,
finalmente, passe pelo Silêncio da Morte, o grande
silenciador, para reconhecer que foi exaltado a uma vida
superior, onde, uma voz que surge do silêncio, sussurra
debilmente, falando-lhe ao centro, no qual poderá ele
encontrar o verdadeiro segredo de M\Maçom, para o
qual há de ir completamente só. No C\, no silêncio de
seu próprio coração, encontrará o ponto situado dentro
do círculo, onde, como diz um hino egípcio, moram " A
única Obscura Verdade, o Coração do Silêncio, o Mistério
Oculto e o Deus Interno entronizado no Altar”.